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(Correio da Paraíba -
Domingo, 23 de Agosto de 2009)
"Professores e sexólogos denunciam mau ensino Educação
sexual ainda é tabu e escola dissemina frustração."
A educação sexual ainda é um tabu em maior parte das escolas em
entre pais de alunos. Para sexólogos, o mau ensino sobre o tema
pode gerar frustrações e disfunções sexuais. Estudantes dizem
que professores sequer conversam sobre temas como orgasmo e
homossexualidade. Em alguns colégios, discussões são
implementadas através de oficinas, grupos de debate e teatro.
Orgasmo, masturbação, virgindade, primeira vez, aborto, métodos
anticoncepcionais, gravidez, homossexualidade, doenças
sexualmente transmissíveis. Esses são alguns dos temas que
enchem a cabeça dos adolescentes de dúvidas e têm respostas não
tão fáceis para quem está nessa fase. Especialistas afirmam que
a família e a escola têm papéis essenciais diante desses
questionamentos. No entanto, a situação fica complicada quando,
nas escolas, a educação sexual é tratada como um tema
transversal que enfoca, na grande maioria das vezes, aspectos
biológicos e fisiológicos do funcionamento do sistema reprodutor
e deixa de lado os aspectos comportamentais que tiram o sono de
muitos.
Segundo sexólogos, as consequências da inexistência ou errada
exploração da educação sexual desde os primeiros anos de escola
podem ser frustrações e disfunções sexuais que, sem o devido
tratamento, têm a possibilidade de acompanhar o indivíduo pelo
resto da vida.
No Brasil, desde a implantação dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs), em 1997, a educação sexual foi incorporada
como tema transversal a ser trabalhado nas diversas disciplinas,
o que refletia a preocupação do Estado com as questões
relacionadas à disseminação da Aids e à gravidez na
adolescência.
Mas, apesar deste aval e do consenso entre os professores e pais
sobre a importância dos temas, grande parte das escolas ainda
restringe as atividades nesta área à promoção de palestras
eventuais com profissionais não integrantes do corpo docente.
A transversalidade estabelecida pelos PCNs encontra dificuldade
de ser aplicada diante da vivência pedagógica real da maioria
das instituições escolares do país. Outro aspecto diz respeito à
necessidade de capacitação sistemática de professores, já que os
PCNs destacam a figura do professor como detentor de uma postura
crítica sobre seus valores e os socialmente atribuídos à
sexualidade, incluindo o respeito aos posicionamentos dos
alunos.
Segundo a gerente Operacional de Integração Escola Comunidade da
Secretaria Estadual de Educação da Paraíba, Dulce Costa
Magalhães, a educação sexual é trabalhada de forma transversal
nas escolas estaduais paraibanas, ou seja, o tema deve ser
incluído no conteúdo programático das diversas disciplinas. A
temática também é abordada em parceria com a Secretaria de Saúde
através do programa Saúde e Prevenção na Escola (SPE).
O SPE é um projeto dos Ministérios da Saúde e da Educação que
conta com o apoio da Unesco e do Unicef. Ele define a escola
como espaço para a articulação das políticas voltadas para
adolescentes e jovens.
O objetivo central é a promoção da saúde sexual e da saúde
reprodutiva, visando reduzir a vulnerabilidade de adolescentes e
jovens às Doenças Sexulamente Transmissíveis, à infecção pelo
HIV e à gravidez não-planejada, por meio de ações nas escolas e
nas unidades básicas de saúde. Segundo a gerente Dulce Costa, o
programa também se preocupa com a capacitação dos professores
para trabalhar a educação sexual em sala de aula. Nas escolas
municipais da Capital, o formato é basicamente o mesmo.
Segundo a diretora do Departamento de Projetos, Programas e
Convênios da Secretaria de Educação de João Pessoa, Josenilda
Oliveira, as escolas municipais também utilizam o SPE. Ela
explica que são realizadas atividades quinzenais nas escola
durante todo o ano, onde as discussões sobre sexualidade são
implementadas através de oficinas, grupos de debate e teatro.
Sexo é estudado em outras
disciplinas
Os estudantes garantem: conversar sobre sexo com os professores
em sala de aula continua sendo tabu. De acordo com alunos do
Liceu Paraibano, maior escola estadual da Paraíba, temas como
gravidez e métodos anticoncepcionais são mais facilmente
trabalhados dentro dos conteúdos de Biologia, mas quando se
trata de discutir orgasmo feminino ou homossexualidade, por
exemplo, ou não se fala ou se discute de forma limitada.
Pamela Medeiros, de 17 anos, é aluna do 3º ano do Liceu. Ela
afirma que os conteúdos para o vestibular são prioridade em sala
de aula e que são poucos os professores que falam sobre
sexualidade. “Ás vezes o debate sobre sexo é feito com
professores de outras disciplinas, como História e Física,
porque são mais abertos, mais brincalhões e têm uma intimidade
maior com a turma. Mas nada muito aprofundado também. O problema
é que, quanto mais o tempo passa, mais as dúvidas vão aumentando
na nossa cabeça”, reclama Pamela.
Ela afirma, também, que o tempo da aula é curto para tanta coisa
e falar sobre sexualidade quase nunca está na pauta do dia. O
colega de sala de Pamela, Thiago Nascimento, de 16 anos,
complementa que a situação é ainda pior para as meninas. “Nós,
meninos, ainda brincamos mais falando sobre masturbação, por
exemplo. As meninas são mais retraídas para falar sobre alguns
assuntos, para elas é ainda pior”, disse Thiago. Nas séries
menores a situação não é diferente. Érica Aline da Silva é aluna
do 1º ano e afirma que recorre às amigas ou ao ginecologista
para tirar as dúvidas. “Meus professores não falam sobre isso e
eu acho errado porque a escola também tem que educar para a
vida”, disse Érica.
Abordagem de forma
criativa
O professor de Biologia do 1º ano, José Paiva de Sousa,
conhecido como Professor Paiva do Liceu, ensina na escola há 26
anos e afirma que explora os dois lados do conteúdo. Ele diz que
a escola tem obrigação de complementar os conteúdos
programáticos e encontra formas criativas de introduzir as
discussões no dia-a-dia. “Sexualidade já faz parte do meu
programa e, quando vamos falar sobre isso, tento fingir que não
estamos na sala de aula e sim, num bate-papo, numa turma de
amigos. Acho que assim o aluno fica mais a vontade”, explica
Paiva.
O professor afirma que, na maioria das vezes, os estudantes não
vêm com uma orientação adequada do fundamental porque
professores têm medo de abordar o tema. “Em casa, o estudante
nem sempre tem o suporte necessário e acaba na escola a
responsabilidade de dar toda a orientação. Ou então, ele pode
aprender na rua e de maneira errada”, declarou Paiva. Ele acha
que os estudantes estão mais maduros para falar sobre sexo e
acredita que os questionamentos que fazem aos professores são
fundamentais para que os mesmos se reciclem e melhor se
capacitem para tratar da questão.
Segundo os estudantes, quando em casa a abertura não é das
melhores para falar sobre o assunto e a escola não dá o suporte
necessário, a internet e as amigas e amigos mais experientes
acabam sendo a fonte de respostas para as dúvidas mais íntimas.
Há os que achem que qualquer orientação é pouco. Para Adriel
Lucena Batista, aluno de 17 anos do 1º ano, a experiência
prática acaba servindo como a melhor escola. “Não tem para onde
correr. Só a experiência mesmo para fazer as dúvidas irem
embora. É natural, é só garantir a camisinha e pronto. Num lugar
sem luz, um beijo instigado e a coisa flui’, brincou o
adolescente.
Religião interfere
Carlos Magno destaca que a questão religiosa também tem
influência decisiva quando se trata de educação sexual. Segundo
ele, as crenças religiosas não devem interferir no processo
educacional, mas devem ser respeitadas assim como outras
questões quando se trata dessa discussão. A Arquidiocese da
Paraíba, por exemplo, defende uma orientação sexual nas escolas
desde que esteja de acordo com os princípios da Igreja Católica,
como o sexo só depois do casamento. Segundo a Arquidiocese, a
Igreja não recomenda o uso da camisinha, por exemplo, porque
incentivaria a prática sexual antes do casamento. Para o
arcebispo da Paraíba Dom Aldo Pagotto, a responsabilidade da
educação afetiva-sexual dos filhos cabe aos pais, os primeiros
formadores, e não se deve evocar a problemática remetendo-a
exclusivamente ao Estado, como responsável pela saúde pública.
Angústia, preconceitos,
disfunções...
Segundo o sexólogo clínico e membro da Federação
Latino-americana de Sociedades de Sexologia e Educação Sexual (Flasses),
Carlos Magno Alencar,
a consequência da falta de orientação sexual adequada nas
escolas não significa apenas uma angústia maior numa idade
fundamental de formação do ser humano. Representa, também, a
alimentação de preconceitos, tabus e até o desenvolvimento de
disfunções sexuais por falta de orientação que leve a um
tratamento.
De acordo com Magno, o tema passou a ter importância na escola
quando, no século passado, estudos do médico neurologista
Sigmund Freud concluíram que muitos problemas da sexualidade são
resultado de traumas de infância. Freud dividiu as fases sexuais
em cinco, sendo a maioria delas na infância. São as fases oral,
anal, fálica, de latência e genital, essa última já na
adolescência.
O sexólogo e autor dos livros “Sexo Oral” e “O Outro sexo”,
explica que disfunções sexuais na fase adulta podem ter sido
ocasionadas por uma ação enérgica e repressora dos pais ou do
professor na infância. “Um exemplo: é comum, na fase de
descobrimento do próprio corpo, que a criança toque os genitais
e, quando os pais ou professores não sabem lidar com isso, podem
reprimir, causando um trauma que vai ocasionar problemas na sua
vida sexual futura. Por isso, é importante que a educação sexual
comece já com os pequenos”, disse Carlos Magno.
Segundo ele, a idade certa para se falar da questão sexual em
sala de aula é aos cinco anos, mas muitas escolas já introduzem,
ainda no maternal, fase em que as crianças começam a perceber as
diferenças entre meninos e meninas. Carlos lembra de um caso em
que uma criança foi afastada da escola por estar tocando os
genitais em sala de aula. “É um reflexo da má interpretação da
professora. Não há problema nenhum com a criança e isso pode ter
efeitos desastrosos na vida futura. Por isso, é importante que o
profissional esteja capacitado para lidar com essas situações”,
disse Magno.
Ele explica que existem três métodos de educação sexual: o
método do silêncio, em que a criança se autodescobre sem
orientação dos pais ou professores na chamada educação das ruas;
o método técnico, onde a escola aborda unicamente a biologia e
fisiologia sexual, método esse empregado há cerca de 30 anos,
após a revolução sexual; e o método integrado, considerado pelo
sexólogo como o ideal por integrar a discussão biológica e
comportamental.
“O método integrado engloba temas como aborto, masturbação,
doenças, orgasmo. Isso pode fazer com que a pessoa conheça bem o
funcionamento do seu corpo desde cedo, tenha uma postura mais
segura na vida sexual e consiga identificar se sofre de alguma
disfunção como ejaculação precoce, anorgasmia e desejo inibido.
Isso é fundamental para uma vida sexual saudável”, disse
o sexólogo. Ele defende que as aulas de educação sexual sejam
implantadas nas escolas com autorização dos pais a partir dos
cinco anos de idade como disciplina da grade curricular.
Particulares não abordam
tema
Para o psicólogo, doutor em educação e professor da Universidade
Federal da Paraíba (UFPB), Dimas Lucena, uma escola cujos
docentes das diversas disciplinas tenham discernimento para
detectar os momentos e faixas etárias adequadas para introduzir
questões sobre sexualidade e proporcionar amplos debates está
distante da realidade. Para ele, as escolas estão mais
vinculadas a práticas próximas a contexto discriminador, com
dificuldades para reconhecer e aceitar as diferenças, o que
dificulta o desenvolvimento de processo educativo.
Dimas explica que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)
apenas sugerem a implantação dos temas transversais, e não há no
Brasil nenhuma lei que determine aulas de educação sexual.
Assim, na prática, os alunos recebem informações eventuais e não
contam com programas estruturados e continuados na maioria das
escolas. Ele lembra que o problema não se restringe apenas as
escolas públicas, mas as escolas particulares também estão
incluídas nesse processo. Para o professor, “a educação sexual
deveria ter um caráter interdisciplinar ou mesmo
transdisciplinar, constar nos Projetos Políticos Pedagógicos de
cada escola e estar integrado nas diversas possibilidades de
aprendizagem do ambiente escolar. Isso destacando que a temática
deveria ser abordada de acordo com cada faixa etária,
respeitando a capacidade de compreensão cognitiva, a linguagem e
a curiosidade inerente a cada estágio do desenvolvimento
psicossexual”.
Dimas concorda com o posicionamento do sexólogo Carlos Magno e
defende que a sexualidade deve sempre ser vista dentro de uma
visão cidadã responsavelmente emancipatória e
bio-psico-social-cultural. Para Dimas, a consequência de uma
visão apenas biológica não ajuda a superar medos, inseguranças,
preconceitos e tabus, o que fica ainda pior quando a posição dos
pais é omissa ou repressora.
“Existem muitas formas de se abordar a educação sexual nas
escolas, o que não se restringe a aulas de biologia. O professor
de português pode usar obras literárias como Jorge Amado, por
exemplo, para tratar de relações amorosas, machismo, sexualidade
feminina. Também podem ser usados poemas, filmes, peças,
músicas. As formas são muitas para se tratar do assunto dentro
de várias matérias, basta que o professor tenha interesse
capacitação para tal”, afirmou Dimas.
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